PRECOCE
Mal de Parkinson atinge pessoas jovens
por MARTA ASSUMPÇÃO
via Rafael de Assis
Quando o ator norte-americano Michael J. Fox revelou no mês passado que sofre de parkinsonismo, a surpresa foi geral. Afinal, não era de se esperar que um astro de cinema, Fox protagonizou "De Volta Para o Futuro" e o seriado "Spin City", admitisse, publicamente, ser portador de um mal que afeta o sistema nervoso central, é progressivo (pode deixá-lo sem andar ou sem falar) e incurável. Da perspectiva médica, a surpresa se deu por outra razão: pela raridade da ocorrência deste mal em pessoas com menos de 55 anos, Michael Fox tem 37 anos.
Segundo Henrique Ferraz, 41 anos, professor de neurologia clínica da Universidade Federal de São Paulo, a incidência do mal de Parkinson na faixa de 30 a 40 anos é baixíssima e "corresponde apenas a 5% ou 10% dos casos". Michael Fox é um caso atípico, que os médicos incluem no chamado "grupo de exceção".
Em entrevista à revista "People", no mês passado, o ator disse que sua doença foi descoberta quando ele tinha 30 anos. Foi durante uma gravação da comédia romântica "Doc Hollywood", em 1991, que Fox percebeu pela primeira vez que havia "alguma coisa errada". "Um dos dedos da mão esquerda começou a contrair sem querer". De lá para cá as coisas pioraram bastante. Mas em março deste ano, Michael Fox foi submetido a uma cirurgia no cérebro que eliminou "quase completamente" seu pior sintoma da doença: um tremor violento do lado esquerdo.
O caso do ator mostra que ninguém está livre de contrair esta doença, cujos sintomas principais são tremor (em repouso), hipocinesia (movimentos mais lentos) e hipertonia (rigidez muscular). A estimativa mundial é que surjam 20 novos casos de parkinsonismo por 100 mil pessoas, por ano. Nos Estados Unidos, cerca de um milhão de pessoas têm a doença e, destes, apenas 10% ocorrem em pessoas com menos de 40 anos. No Brasil, não há estatística oficial, mas estima-se que existam entre 160 mil e 320 mil pessoas portadoras da doença.
DEFINIÇÃO - Luiz Celso Vilanova, 48 anos, neurologista infantil e professor da Escola Paulista de Medicina, explica que a doença de Parkinson (que é sinônimo de mal de Parkinson) precisa ser diferenciada da síndrome parkinsoniana. "Quando se discute a doença de Parkinson fala-se de uma predisposição geneticamente determinada; a síndrome parkinsoniana pode ter causas variadas", diz o médico.
Apesar de o gene causador de alguns casos da doença de Parkinson, que representam apenas uma pequena porcentagem dos pacientes (de 1% a 5%), já ter sido isolado, o fator genético como determinante da doença não é de grande importância.
Na maioria dos casos, a causa do parkinsonismo não é conhecida, embora seja provável que estes indivíduos estiveram expostos a algum tipo de agressão, como traumatismo craniano e substâncias tóxicas (como o manganês e alguns inseticidas), ou tiveram alguma infecção forte (como encefalite) em fases precoces da vida. Os sintomas parkinsonianos apareceriam como resultado destas agressões, que podem causar uma perda na população de neurônios que se situam em uma região do cérebro chamada substância negra.
Esta perda de neurônios em fases mais precoces da vida pode não parecer tão crítica. Porém, com o passar dos anos, soma-se à perda neuronal própria do envelhecimento e podem, então, surgir os sintomas parkinsonianos. Por isso, a manifestação destes sintomas é mais comum para indivíduos com mais de 50 anos. No paciente mais jovem, a síndrome parkinsoniana resulta geralmente de exposições (a medicamentos, substâncias tóxicas ou infecções) que bloqueiam ou destroem a ação de, pelo menos, 80% dos neurônios deste indivíduo em um espaço de tempo mais curto.
Segundo Egberto Reis Barbosa, 50 anos, neurologista do Hospital das Clínicas e da Faculdade de Medicina da USP, quando estas agressões ocorrem, a redução da população de neurônios pode atingir o ponto crítico, "que é de 80% de perda; isso faz com que haja a eclosão da doença". O normal é que um indivíduo que nunca sofreu agressões à substância negra sofra, a partir dos 30 anos, uma redução de 10% da população de neurônios, por década. "Quando esta queda atingir apenas 20% da porcentagem normal de neurônios surgem os sintomas parkinsonianos", diz o médico.
O cérebro de um paciente com um número menor de neurônios (independentemente da causa que pode levar o indivíduo ao parksonismo) produz menos dopamina, um neurotransmissor envolvido no controle dos movimentos do corpo. Por isso, o tratamento dos que sofrem de parkinsonismo volta-se à reposição da dopamina, com medicamentos à base de levodopa, um precursor da dopamina fabricada sinteticamente.
TRATAMENTO - O problema destes pacientes é que após cinco ou dez anos de tratamento, este medicamento pode provocar complicações sérias como movimentos involuntários que não são do Parkinson, como é o caso da dona-de-casa Gislene Aparecida Rossi de Godoi, 42 anos, ou "distúrbios psiquiátricos como alucinações ou delírios", diz Egberto Reis. Nos casos em que controle destes sintomas não é mais possível só com medicamentos, o médico pode indicar a cirurgia para tentar aliviar os sintomas do paciente.
Via de regra, cirurgias são praticadas apenas nos pacientes adultos, que contraíram o mal de Parkinson propriamente dito. Segundo o neurologista infantil Luiz Celso, "a função das cirurgias nas crianças, que geralmente tem outras manifestações clínicas associadas à síndrome, são ainda motivo de pesquisa", por isso ela ainda "não é indicada para estes casos que são muito raros".
A cirurgia é baseada no fato de que a falta de dopamina provoca um desarranjo em um circuito importante do cérebro onde uma parte das células funciona demais (ficam hiperativas) enquanto outras funcionam de menos (ficam hipoativas).
Neste caso, "a cirurgia visa destruir células hiperativas para tentar resgatar um funcionamento mais adequado do circuito", diz Henrique Ferraz. Mas como lembra Egberto Reis, o ideal seria reparar ou repor os neurônios lesados.
Apesar de todos os avanços na medicina, as tentativas de regeneração ou reposição das células cerebrais através de diversos procedimentos (como medicamentos ou cirurgia) "ainda não tem sido bem sucedidas", diz o médico.
Embora se saiba muito pouco sobre a incidência do uso de drogas (ou de qualquer outra causa) na ocorrência do parkinsonismo, uma pesquisa norte-americana da década de 1970 sobre um grupo de jovens californianos com menos de 30 anos que desenvolveram a síndrome parkinsoniana em poucas semanas comprovou uma correlação entre aqueles que consumiram um tipo de heroína (misturada a uma substância química análoga a meperidina, a MPTP) com a síndrome.
Apesar deste ser um tema que ainda requer mais investigação, é razoável dizer que os usuários de drogas pesadas (como a heroína misturada ao MPTP, ou o êxtase turbinado que está atualmente sendo fabricado na Inglaterra) fazem parte de um grupo de risco que pode vir a desenvolver alguns sintomas do parkinsonismo no futuro. Sabe-se, contudo, que Michael J. Fox não fazia parte deste grupo. Parece que o ator nunca consumiu drogas, nunca sofreu traumatismo craniano e jamais esteve exposto a substâncias tóxicas. "No meu caso sobrou apenas aquela coisa: o destino", disse Fox à "People". "Sou aquele cara que o destino decidiu tocar", completou.
DESCOBERTA - O mal de Parkinson foi descrito, pela primeira vez, em 1817, quando um médico inglês que deu o nome à doença, Dr. James Parkinson, relatou os seis primeiros casos da doença. Naquela época a descoberta não registrou muito interesse provavelmente porque, sendo baixa a expectativa média de vida, a ocorrência da doença era rara. A medida em que a longevidade foi aumentando, o número de casos foi crescendo, e quanto mais se avança em idade, maior a chance de se ter a doença. Hoje se sabe que 1% da população do mundo, acima de 60 anos, são portadores da doença.
Luiz Celso Vilanova, 48 anos, neurologista infantil e professor da Escola Paulista de Medicina, explica que a doença de Parkinson (que é sinônimo de mal de Parkinson) precisa ser diferenciada da síndrome parkinsoniana. "Quando se discute a doença de Parkinson fala-se de uma predisposição geneticamente determinada; a síndrome parkinsoniana pode ter causas variadas", diz o médico.
Apesar de o gene causador de alguns casos da doença de Parkinson, que representam apenas uma pequena porcentagem dos pacientes (de 1% a 5%), já ter sido isolado, o fator genético como determinante da doença não é a principal preocupação dos médicos.
Na maioria dos casos, a causa do parkinsonismo não é conhecida, embora seja provável que os pacientes estiveram expostos a algum tipo de agressão, como traumatismo craniano e substâncias tóxicas (como o manganês e alguns inseticidas), ou tiveram alguma infecção forte (como encefalite) em fases precoces da vida.
Os sintomas parkinsonianos apareceriam como resultado dessas agressões, que podem causar uma perda na população de neurônios que se situam em uma região do cérebro chamada substância negra. Esta perda de neurônios em fases mais precoces da vida pode não parecer tão crítica. Porém, com o passar dos anos, soma-se à perda neuronal própria do envelhecimento e podem, então, surgir os sintomas parkinsonianos.
No paciente mais jovem, a síndrome parkinsoniana resulta geralmente de ações que bloqueiam ou destroem os efeitos de, pelo menos, 80% dos neurônios deste indivíduo em um espaço de tempo mais curto.
Segundo Egberto Reis Barbosa, 50 anos, neurologista do Hospital das Clínicas e da Faculdade de Medicina da USP, quando essas agressões ocorrem, a redução da população de neurônios pode atingir o ponto crítico, 80% de perda.
O normal é que um indivíduo que nunca sofreu agressões à substância negra sofra, a partir dos 30 anos, uma redução de 10% da população de neurônios por década. O cérebro de um paciente com um número menor de neurônios (independentemente da causa que pode levar o indivíduo ao parkinsonismo) produz menos dopamina, um neurotransmissor envolvido no controle dos movimentos do corpo.
Por isso, o tratamento das pessoas que sofrem de parkinsonismo volta-se à reposição da dopamina, com medicamentos à base de levodopa, um precursor da dopamina fabricada sinteticamente. O problema é que após cinco ou dez anos de tratamento, este medicamento pode provocar sérias complicações, como movimentos involuntários que não são do Parkinson.
DEPOIMENTOS - A dona de casa Gislene Aparecida Rossi de Godoi, de 42 anos, descobriu que sofria de mal Parkinson quando tinha 38 anos. "Comecei a sentir um tremor tão grande no braço esquerdo que eu não conseguia nem escrever com o direito. Depois de uns sete meses de martírio, um neurologista me deu Sinemet (remédio que se transforma em dopamina no organismo) e eu melhorei. Só que agora o remédio já começou a provocar efeitos colaterais."
Segundo Gislene Aparecida, sua perna estica sem ela querer e faz movimentos involuntários. "Ultimamente o meu médico está falando em cirurgia, mas tenho medo. A gente nunca sabe do resultado de uma operação dessas", diz a dona de casa. As Cirurgias são praticadas somente nos pacientes adultos, que contraíram o mal de Parkinson propriamente dito.